Tuesday, November 15, 2005
Monday, November 14, 2005
Sunday, November 13, 2005
bruno_o alternativo comedido_ parte 02
Aqui se inicia o relato sobre o meu teste pessoal.
Algum tempo atrás me coloquei em algo novo, ao menos para mim.
Resolvi por questões lógicas que deveria abraçar alguém que normalmente nunca abraçaria. Aqui é o momento de relatar minhas experiências pessoais. Praticamente uma performance.
Sai na rua em busca da pessoa ideal. Um ideal.
Alguém sujo. Alguém muito sujo. Alguém que cheirasse merda. Alguém que tivesse o nariz escorrendo de tanto catarro. Alguém que carregasse feridas por todo o corpo. Feridas devido aos inúmeros carrapatos. Feridas de cortes, que provavelmente deveriam ter sido causados por quedas constantes durante o dia. Alguém que caísse muito porque era alcoólatra e fedesse cerveja. Alguém que tivesse as unhas pretas de tanto esfregar o lixo em busca de alimento. Alguém que se masturbasse o dia inteiro feito um cachorro no cio. Alguém que defecasse no meio na rua em plena luz do dia. Alguém que praticamente fosse um vira-lata. Alguém que da rua faz sua morada. Alguém que cultivasse a barba, pois não tem como comprar uma lâmina e cortá-la. Alguém que morasse debaixo da ponte. Alguém digno de pena. Alguém que a morte não será lamentada por ninguém. Alguém que realmente não escolhesse aquilo que come. Come aquilo que encontra. Alguém que resistisse à vida e não alguém que vivesse. Alguém. Um qualquer. Um porco. Esse ideal estava na minha cabeça. Uma pessoa escrota. Um mendigo de rua foi a minha primeira opção. Por que não? Deveria estar aberto a qualquer possibilidade. Eu procurava o meu ideal.
Pensei logo no mendigo que invadiu uma casa abandonada, isso na minha rua. Muitas vezes o vi masturbando na frente das pessoas. Todas chocadas. Ele sempre me cumprimenta quando cruzo a calçada. Talvez fosse a pessoa mais acessível. A pessoa perfeita.
Procurei. Procurei.
Estava lá. Como todos os dias. Parado. Olhando fixamente o nada. Sentado num banco da rua. O fluxo de pessoas não o interessava. Parei de longe e o observei. Ele vestia o de sempre, o mesmo paletó que usa desde seus 19 anos. Será que ele sabe a própria idade? Perguntei. Não diretamente a ele, foi uma pergunta interna mesmo. Eu somente o observava. Avancei. Quanto mais próximo, aumentava o meu ímpeto de abraçá-lo. Minha ansiedade rompia os limites da sanidade. Alguma força interna me movia para cometer aquele ato. Nada de mal poderia me acontecer. Nada. Era apenas um abraço. Um abraço para arrebentar de vez minha barreira como artista. Como pessoa. Como cidadão. Enfim, aquele ato mudaria meu modo de enxergar as pessoas.
Mais um passo. Outro. Outro. Ele notou de vez minha presença. Até então parecia estar tudo em perfeita ordem. Ninguém invadia espaço um do outro. Mais um passo. E enfim a primeira cusparada. O mendigo se levantou contra mim e num ato de loucura se ateve a cuspir tudo que podia em meu rosto. Era uma baba grossa. Nojenta. Corri. Corri sem parar. Arranquei minha camiseta e limpei aquele engodo. Obviamente a camiseta ficou na rua, jogada. Não a usaria nunca mais. Nojento.
Resultado:tomei um banho de quatro horas e trinta e cinco minutos. Gastei dois sabonetes inteiros. Esfreguei meu rosto por exatas 435 vezes. Gastei um recipiente inteiro de xampu. Minhas mãos permaneceram enrugadas por exatas quatro horas e trinta e cinco minutos. Gastei um vidro inteiro de pinho sol limpando cada maçaneta que toquei antes de tomar o banho. Minha roupa inteira foi diretamente para o lixo. Esgotado com todo aquele gasto de energia.AHHH. Dormi.
Só consegui de fato relaxar quatro dias e trinta e cinco minutos depois, quando voltei a sair de casa.
Algum tempo atrás me coloquei em algo novo, ao menos para mim.
Resolvi por questões lógicas que deveria abraçar alguém que normalmente nunca abraçaria. Aqui é o momento de relatar minhas experiências pessoais. Praticamente uma performance.
Sai na rua em busca da pessoa ideal. Um ideal.
Alguém sujo. Alguém muito sujo. Alguém que cheirasse merda. Alguém que tivesse o nariz escorrendo de tanto catarro. Alguém que carregasse feridas por todo o corpo. Feridas devido aos inúmeros carrapatos. Feridas de cortes, que provavelmente deveriam ter sido causados por quedas constantes durante o dia. Alguém que caísse muito porque era alcoólatra e fedesse cerveja. Alguém que tivesse as unhas pretas de tanto esfregar o lixo em busca de alimento. Alguém que se masturbasse o dia inteiro feito um cachorro no cio. Alguém que defecasse no meio na rua em plena luz do dia. Alguém que praticamente fosse um vira-lata. Alguém que da rua faz sua morada. Alguém que cultivasse a barba, pois não tem como comprar uma lâmina e cortá-la. Alguém que morasse debaixo da ponte. Alguém digno de pena. Alguém que a morte não será lamentada por ninguém. Alguém que realmente não escolhesse aquilo que come. Come aquilo que encontra. Alguém que resistisse à vida e não alguém que vivesse. Alguém. Um qualquer. Um porco. Esse ideal estava na minha cabeça. Uma pessoa escrota. Um mendigo de rua foi a minha primeira opção. Por que não? Deveria estar aberto a qualquer possibilidade. Eu procurava o meu ideal.
Pensei logo no mendigo que invadiu uma casa abandonada, isso na minha rua. Muitas vezes o vi masturbando na frente das pessoas. Todas chocadas. Ele sempre me cumprimenta quando cruzo a calçada. Talvez fosse a pessoa mais acessível. A pessoa perfeita.
Procurei. Procurei.
Estava lá. Como todos os dias. Parado. Olhando fixamente o nada. Sentado num banco da rua. O fluxo de pessoas não o interessava. Parei de longe e o observei. Ele vestia o de sempre, o mesmo paletó que usa desde seus 19 anos. Será que ele sabe a própria idade? Perguntei. Não diretamente a ele, foi uma pergunta interna mesmo. Eu somente o observava. Avancei. Quanto mais próximo, aumentava o meu ímpeto de abraçá-lo. Minha ansiedade rompia os limites da sanidade. Alguma força interna me movia para cometer aquele ato. Nada de mal poderia me acontecer. Nada. Era apenas um abraço. Um abraço para arrebentar de vez minha barreira como artista. Como pessoa. Como cidadão. Enfim, aquele ato mudaria meu modo de enxergar as pessoas.
Mais um passo. Outro. Outro. Ele notou de vez minha presença. Até então parecia estar tudo em perfeita ordem. Ninguém invadia espaço um do outro. Mais um passo. E enfim a primeira cusparada. O mendigo se levantou contra mim e num ato de loucura se ateve a cuspir tudo que podia em meu rosto. Era uma baba grossa. Nojenta. Corri. Corri sem parar. Arranquei minha camiseta e limpei aquele engodo. Obviamente a camiseta ficou na rua, jogada. Não a usaria nunca mais. Nojento.
Resultado:tomei um banho de quatro horas e trinta e cinco minutos. Gastei dois sabonetes inteiros. Esfreguei meu rosto por exatas 435 vezes. Gastei um recipiente inteiro de xampu. Minhas mãos permaneceram enrugadas por exatas quatro horas e trinta e cinco minutos. Gastei um vidro inteiro de pinho sol limpando cada maçaneta que toquei antes de tomar o banho. Minha roupa inteira foi diretamente para o lixo. Esgotado com todo aquele gasto de energia.AHHH. Dormi.
Só consegui de fato relaxar quatro dias e trinta e cinco minutos depois, quando voltei a sair de casa.
Saturday, November 12, 2005
Bruno_lirico_ parte 01
Errei a mão. Perdi o tato. Cortei.
Tudo aquilo que me faz lembrar você, destruí. Posso muito bem viver sem sua presença. Tenho certeza que sim. Não preciso mais de você ao meu lado todos os dias. Quantos equívocos me proporcionaste? Quantas vergonhas não passei? Sem saber nunca onde colocar você. Parecia um tolo quando alguém se aproximava de mim e você ficava ali. Não sabia como se comportar. Era um tal de se roçar. Um tal de suar. Chegava a pingar de tanta ansiedade. Devia te enfiar inteira no bolso. Escondê-la. Mas ainda assim seria um erro. Seria como manter as fotos de um amor destruído ainda na cabeceira. Quero perder qualquer contato seu. Preciso te esquecer. Quero novas dores. Essa dor, nunca mais. Quantos tapas já não levei ? E você ficou ali, parada. Nem para me proteger. Quantas lagrimas você já enxugou? Nenhuma. Esquece. Quero que você e eu nunca mais tenhamos nenhuma sensação em comum. Rompemos nossas sensibilidades.
Corto o pulso de uma só vez. Adeus mão...
Tudo aquilo que me faz lembrar você, destruí. Posso muito bem viver sem sua presença. Tenho certeza que sim. Não preciso mais de você ao meu lado todos os dias. Quantos equívocos me proporcionaste? Quantas vergonhas não passei? Sem saber nunca onde colocar você. Parecia um tolo quando alguém se aproximava de mim e você ficava ali. Não sabia como se comportar. Era um tal de se roçar. Um tal de suar. Chegava a pingar de tanta ansiedade. Devia te enfiar inteira no bolso. Escondê-la. Mas ainda assim seria um erro. Seria como manter as fotos de um amor destruído ainda na cabeceira. Quero perder qualquer contato seu. Preciso te esquecer. Quero novas dores. Essa dor, nunca mais. Quantos tapas já não levei ? E você ficou ali, parada. Nem para me proteger. Quantas lagrimas você já enxugou? Nenhuma. Esquece. Quero que você e eu nunca mais tenhamos nenhuma sensação em comum. Rompemos nossas sensibilidades.
Corto o pulso de uma só vez. Adeus mão...
Thursday, November 10, 2005
bruno_foto_parte 03

Entrego meu corpo.
Não como a performer radical Orlan e suas muitas plásticas, mas ao meu modo. Entrego humildemente meu corpo ao mundo, virtualmente.
Um corpo que não é propriamente matéria física. Num tempo em que a presença efetiva dos corpos não é mais necessariamente importante. A minha mão é utensílio descartável. O corpo é obsoleto, ultrapassado. Será que não seria mais útil termos uma máquina fotográfica dentro de nossa mão biônica ? Sterlac está anos luz nessa minha discussão tão embrionária.
Wednesday, November 09, 2005
Bruno_o asseptico_parte 01
Deitado. Imóvel. Sobre uma cama. Levanto a cabeça para conferir se o chinelo está próximo. Perfeito, o chinelo ainda permanece ali. No exato local em que coloquei antes de dormir. Simetricamente junto a cama, a ponto de num simples movimento calça-lo sem grandes obstáculos. Deito novamente a cabeça. Respiro. Confiro mais uma vez apenas. O chinelo está lá. Ele deve permanecer ali. No mesmo lugar. É necessário que nada mude. Tudo permaneça intacto. Seria um equivoco da minha parte errar o alvo e por ventura, num desastre, entrar em contato com o chão. Sabe-se lá o que tocou esse chão. Baratas. Ratos. Cachorros. Gatos. Insetos de todas as espécies. Humanos de todas as espécies. A empregada. Ela pode muito bem ter encostado nesse chão. Aquele pé horroroso. Já teve unha encravada, pus... Aquele pé cheio de micoses, olho de peixe... E se eu pegar alguma doença daquela troncha? Confiro mais uma vez. Só para ter certeza que o chinelo ainda não saiu do lugar. Perfeito. Minha última chance.
No entanto, por sorte até agora o chinelo ainda não saiu do lugar. Mas se algo acontecer no momento exato do meu movimento ? Pior. Se um rato passar por aqui num piscar de olhos. Num piscar de olhos. Quantas coisas não acontecem num piscar de olhos ? Ainda mais hoje. Com a velocidade da velocidade da velocidade.
Minutos são desperdiçados. Informações perdidas. Coitos interrompidos. Gozos desperdiçados. Relacionamentos destruídos. Amores acabados. Bombas explodindo. Homens-bombas. Prédios detonados. Cidades inteiras destroçadas. Gatilhos disparados. O planeta pode ser detonado 15 vezes seguidas num simples toque de botão.
Tudo num piscar de olhos. Se um rato passar por aqui e cagar no meu chinelo é porque sou mesmo muito azarado. Calma. Respira. Respira. Afinal azar não é algo que costumo ter. Não me recordo da última vez em que me meti numa maré de azar. Azar. Azar. Azar. É...Azar mesmo acho que é algo que nunca tive. Já passei por momentos difíceis. Mas azar mesmo. Desses tipos de azar que pega a família toda. Sabe azar de morrer Mãe, Pai, Tia, Tio, Avô, Avó, Sobrinha, Sobrinho, Primo, Prima, Cachorro, Gato, Galinha, todo tipo de espécie de uma mesma família. Bom esse tipo de azar nunca me ocorreu. <pausa> Puta que pariu. Eu disse. A palavra. Eu disse. A única palavra que não se pode dizer. Minha avó sempre avisa. A única palavra impronunciável. A única. No mundo imenso de uma vasta gramática da lingua portuguesa, fui dizer justamente ela. Azar. Azar só atrai azar. Porra. Isso lá é coisa que se fale numa hora dessas. É má sorte. Má sorte. Agora ferrou.
Tenho certeza que um rato vai passar em cima do meu chinelo, cagar, dar uma mijada e ainda por cima olhar para mim com aquela cara de "ahá se ferrou" bem durante a minha piscadela de olhos. Por quê tive de falar essa maldita palavra? Azar. Eu posso ser o percursor da má sorte na minha família. Imagina, eu ? Eu, o único da família que estuda para ser artista, ficar famoso por matar justamente uma família inteira porque fui o percursor de uma onda de azar. Não. Não posso deixar isso acontecer.
A única solução viável seria não sair mais de casa. De casa não, da cama. Desisto. Fico aqui na cama para sempre. Nunca mais toco esse chão, ou até mesmo esse chinelo que carrega em si a potencialidade de um rato qualquer vir, cagar e ainda mijar. Minha única saída é não sair daqui. Não sair jamais. Nunca ir para a rua.
Mas quais são as condições reais de eu me manter vivo aqui dentro? A geladeira está próxima. O telefone está do meu lado. Qualquer coisa o supermercado entrega. Eu deixo a porta aberta e alguém taca lá de fora a encomenda. Não precisa entrar.
Alguns irão estranhar. Dane-se o que as pessoas vão pensar. Não posso ficar a vida inteira me preocupando com que as pessoas vão achar de mim. Mas eu conheço as pessoas. Todas vão ficar me julgando. No mínimo elas vão se indagar com coisas do tipo:
Como um cara consegue viver a vida trancado em casa? Não tem nada para fazer?
Será que ninguém entende?! Essa é a verdadeira vida moderna. Muito simples. Ninguém precisa chorar. Não vou ficar longe de ninguém. Vocês podem matar a saudade de mim, estarei 24 horas aqui. Eternamente. Poderão manter contato comigo por aqui. Todos sem excessão. Até quem nunca me viu na vida. As pessoas poderão se aproximar de mim. Mais pessoas poderão me conhecer, sem nunca ter me visto pessoalmente. O pessoalmente não me importa. Melhor assim, as pessoas lá e eu aqui.
Inclusive isso será muito importante para que não haja contaminação de qualquer espécie de humano para comigo. As nossas relações ficarão muito mais saudáveis. Não preciso mais fingir que não sinto o seu bafo quando chega perto de mim ou que não percebo o cheiro do seu sovaco. Ou que não vejo aquela baba que fica no cantinho da sua boca ao falar, parecendo um leite condensado que nunca sai. Até mesmo quando você tem caspa e toda hora respinga no meu prato de comida. Ou aquela amiga que todo dia de manhã acorda com tanta remela no olho e ainda quer te cumprimentar com um beijo. Ou quando um engraçadinho peida no elevador. Eu não obrigo ninguém a sentir meu cheiro.
Olha quantas coisas eu não precisarei mais presenciar permanecendo aqui! Isso só acontece porque estou atrás dessa maravilha fantástica, longe de qualquer espécie de humano.
Não mais precisarei fingir que sou uma pessoa simpática.
Não mais precisarei fazer com que todos gostem de mim.
Não mais me incomodarei com a opinião dos outros. Afinal agora posso ser quem eu quiser. Posso montar uma nova imagem de mim mesmo. Esse da foto que vocês vêem, pode nem ser eu mesmo. Aliás eu não sou uma foto. Nunca fui. Você pode nunca saber quem sou. Ou como sou. Você que está lendo esta página neste instante pode estar lendo daqui a milhões de anos. Eu posso morrer e você que está lendo essa página neste instante pode nem saber disso. Eu posso ser um completo maníaco e você nunca desconfiará.
Mas enquanto puder, estarei aqui. Ainda tateando, mas sempre construindo um novo corpo, mais útil. Esse daqui já está em desuso.Fora de moda. Procuro o novo. Um novo Bruno
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