Deitado. Imóvel. Sobre uma cama. Levanto a cabeça para conferir se o chinelo está próximo. Perfeito, o chinelo ainda permanece ali. No exato local em que coloquei antes de dormir. Simetricamente junto a cama, a ponto de num simples movimento calça-lo sem grandes obstáculos. Deito novamente a cabeça. Respiro. Confiro mais uma vez apenas. O chinelo está lá. Ele deve permanecer ali. No mesmo lugar. É necessário que nada mude. Tudo permaneça intacto. Seria um equivoco da minha parte errar o alvo e por ventura, num desastre, entrar em contato com o chão. Sabe-se lá o que tocou esse chão. Baratas. Ratos. Cachorros. Gatos. Insetos de todas as espécies. Humanos de todas as espécies. A empregada. Ela pode muito bem ter encostado nesse chão. Aquele pé horroroso. Já teve unha encravada, pus... Aquele pé cheio de micoses, olho de peixe... E se eu pegar alguma doença daquela troncha? Confiro mais uma vez. Só para ter certeza que o chinelo ainda não saiu do lugar. Perfeito. Minha última chance.
No entanto, por sorte até agora o chinelo ainda não saiu do lugar. Mas se algo acontecer no momento exato do meu movimento ? Pior. Se um rato passar por aqui num piscar de olhos. Num piscar de olhos. Quantas coisas não acontecem num piscar de olhos ? Ainda mais hoje. Com a velocidade da velocidade da velocidade.
Minutos são desperdiçados. Informações perdidas. Coitos interrompidos. Gozos desperdiçados. Relacionamentos destruídos. Amores acabados. Bombas explodindo. Homens-bombas. Prédios detonados. Cidades inteiras destroçadas. Gatilhos disparados. O planeta pode ser detonado 15 vezes seguidas num simples toque de botão.
Tudo num piscar de olhos. Se um rato passar por aqui e cagar no meu chinelo é porque sou mesmo muito azarado. Calma. Respira. Respira. Afinal azar não é algo que costumo ter. Não me recordo da última vez em que me meti numa maré de azar. Azar. Azar. Azar. É...Azar mesmo acho que é algo que nunca tive. Já passei por momentos difíceis. Mas azar mesmo. Desses tipos de azar que pega a família toda. Sabe azar de morrer Mãe, Pai, Tia, Tio, Avô, Avó, Sobrinha, Sobrinho, Primo, Prima, Cachorro, Gato, Galinha, todo tipo de espécie de uma mesma família. Bom esse tipo de azar nunca me ocorreu. <pausa> Puta que pariu. Eu disse. A palavra. Eu disse. A única palavra que não se pode dizer. Minha avó sempre avisa. A única palavra impronunciável. A única. No mundo imenso de uma vasta gramática da lingua portuguesa, fui dizer justamente ela. Azar. Azar só atrai azar. Porra. Isso lá é coisa que se fale numa hora dessas. É má sorte. Má sorte. Agora ferrou.
Tenho certeza que um rato vai passar em cima do meu chinelo, cagar, dar uma mijada e ainda por cima olhar para mim com aquela cara de "ahá se ferrou" bem durante a minha piscadela de olhos. Por quê tive de falar essa maldita palavra? Azar. Eu posso ser o percursor da má sorte na minha família. Imagina, eu ? Eu, o único da família que estuda para ser artista, ficar famoso por matar justamente uma família inteira porque fui o percursor de uma onda de azar. Não. Não posso deixar isso acontecer.
A única solução viável seria não sair mais de casa. De casa não, da cama. Desisto. Fico aqui na cama para sempre. Nunca mais toco esse chão, ou até mesmo esse chinelo que carrega em si a potencialidade de um rato qualquer vir, cagar e ainda mijar. Minha única saída é não sair daqui. Não sair jamais. Nunca ir para a rua.
Mas quais são as condições reais de eu me manter vivo aqui dentro? A geladeira está próxima. O telefone está do meu lado. Qualquer coisa o supermercado entrega. Eu deixo a porta aberta e alguém taca lá de fora a encomenda. Não precisa entrar.
Alguns irão estranhar. Dane-se o que as pessoas vão pensar. Não posso ficar a vida inteira me preocupando com que as pessoas vão achar de mim. Mas eu conheço as pessoas. Todas vão ficar me julgando. No mínimo elas vão se indagar com coisas do tipo:
Como um cara consegue viver a vida trancado em casa? Não tem nada para fazer?
Será que ninguém entende?! Essa é a verdadeira vida moderna. Muito simples. Ninguém precisa chorar. Não vou ficar longe de ninguém. Vocês podem matar a saudade de mim, estarei 24 horas aqui. Eternamente. Poderão manter contato comigo por aqui. Todos sem excessão. Até quem nunca me viu na vida. As pessoas poderão se aproximar de mim. Mais pessoas poderão me conhecer, sem nunca ter me visto pessoalmente. O pessoalmente não me importa. Melhor assim, as pessoas lá e eu aqui.
Inclusive isso será muito importante para que não haja contaminação de qualquer espécie de humano para comigo. As nossas relações ficarão muito mais saudáveis. Não preciso mais fingir que não sinto o seu bafo quando chega perto de mim ou que não percebo o cheiro do seu sovaco. Ou que não vejo aquela baba que fica no cantinho da sua boca ao falar, parecendo um leite condensado que nunca sai. Até mesmo quando você tem caspa e toda hora respinga no meu prato de comida. Ou aquela amiga que todo dia de manhã acorda com tanta remela no olho e ainda quer te cumprimentar com um beijo. Ou quando um engraçadinho peida no elevador. Eu não obrigo ninguém a sentir meu cheiro.
Olha quantas coisas eu não precisarei mais presenciar permanecendo aqui! Isso só acontece porque estou atrás dessa maravilha fantástica, longe de qualquer espécie de humano.
Não mais precisarei fingir que sou uma pessoa simpática.
Não mais precisarei fazer com que todos gostem de mim.
Não mais me incomodarei com a opinião dos outros. Afinal agora posso ser quem eu quiser. Posso montar uma nova imagem de mim mesmo. Esse da foto que vocês vêem, pode nem ser eu mesmo. Aliás eu não sou uma foto. Nunca fui. Você pode nunca saber quem sou. Ou como sou. Você que está lendo esta página neste instante pode estar lendo daqui a milhões de anos. Eu posso morrer e você que está lendo essa página neste instante pode nem saber disso. Eu posso ser um completo maníaco e você nunca desconfiará.
Mas enquanto puder, estarei aqui. Ainda tateando, mas sempre construindo um novo corpo, mais útil. Esse daqui já está em desuso.Fora de moda. Procuro o novo. Um novo Bruno

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