Frito. Fudido. Acabado. Destruído. Nada mais me resta. Não posso tomar nenhuma atitude. Estou morto. Enterrado agora. Para quem a campa foi outro berço. Entrego-me a única coisa que resta, um pequeno feixe de luz, aquilo que posso me apegar de verdade, a mim mesmo. Como a morte é fria. Nunca imaginei. Alias nunca tive idéia de como a morte seria, muito menos a minha. Como não pensei nisso antes? Como nunca pensei sobre a minha própria finitude? Um dia tudo acaba. Minha hora chegou. Estou aqui entregue as traças. Os vermes comendo meu corpo. Triturando célula por célula. Destruindo cada particula. Fico olhando minha carne em decomposição. Meu músculo do quadricepes está pela metade. Alguns poucos tendões que restam se movem involuntariamente. Já vejo nitidamente alguns ossos dos dedos, das mãos, dos pés. Um cheiro fétido de enxofre toma conta desse buraco negro. Desculpem-me aqueles que acreditavam que alguma luz surgiria do céu chamando por nós. A única coisa que vejo é a luz que penetra pela rachadura de meu caixão. As vozes nunca vieram. Lamentos, choros não escutei nada. A não ser os meus. Deixei poucos, mas bons amigos, um ou dois. Não larguei minha família sem esperanças. A vida era tão mais alegre. Como eu queria estar vivo de novo. Como eu queria olhar para as pessoas. Cheias de vida, cheias de si. Pessoas que cuidam e pensam uns nos outros. Pessoas honestas, livres que respeitam tudo e a todos. Vivi num mundo único. Onde as pessoas eram sinceras. Encarava a todos com olhar humilde, sem criticas. Nunca fui roubado, furtado, xingado, traído, cuspido, largado, chifrado, corneado, pisoteado, empurrado muito menos passado para trás. Não tive muitos motivos para chorar. Tive uma infância normal. Felizmente a morte nunca foi presente na minha vida. Nunca pensei muito sobre isso. Quisera eu ter refletido melhor sobre isso em vida. Pensado mais sobre a morte. Talvez agora ela não parecesse tão gélida. Por que eu? Por que comigo? Deixei tantas coisas incompletas. Queria ter viajado mais, conhecido outros povos. Alguém me escuta? Se alguém estiver me ouvindo. Vou fazer uma promessa. Prometo melhorar tudo aquilo que eu fazia de errado. Sei que errei, porque todo mundo erra. Mas vou parar de errar. Eu juro. Por favor alguém me arranca daqui. Eu estou prometendo lealdade ao acerto. Abaixo ao erro. Sim ao acerto. A partir de hoje eu só acerto. Será que ninguém escuta? (silêncio longo) Quando estava vivo afirmações como essas costumavam surtir efeito. Agora ninguém move uma palha em meu beneficio. Vivos. Não confie em nada vivo. Como é triste. Queria acreditar que todas as pessoas ainda são felizes como antes. Sinto saudades dos tempos alegres, onde simplesmente confiava na raça dos homens. Quando toda aquela vida urbana nos diferenciava dos animais. Eramos seres superiores. Nunca matavamos. Nunca brigavamos por territorio. Eramos cidadãos. Nada animais. Hoje apodreço como qualquer coisa viva. Como um cachorro qualquer. Queria apodrecer com dignidade. Será que não tenho o direito? Não passo de matéria podre. Declaro aqui a minha morte. Da minha juventude. Queria voltar a acreditar no amor. Tudo era tão mais simples. Ver a morte de frente, no próprio corpo, tem dessas coisas. A gente sente na pele. Enxergamos escuro mesmo. A única luz que existe é minha. A partir de hoje, no dia de minha morte, não acredito em mais nada oito ou oitenta. Não posso confiar em nenhuma pessoa viva. Muito menos em alguém já morto. Não posso acreditar nem mesmo naquele em que um dia disse ser meu irmão. Um dia retalharei todos esses meus sentimentos corrosivos. Mas hoje, preciso ser honesto, sinto certa repulsa, afinal sou obrigado a ficar aqui nesse caixão, imóvel. A respiração é difícil. Meus dedos estão tensos. Minhas pernas se batem o tempo todo. A morte não é mais iminente. A morte é presente. A morte já aconteceu, e suas conseqüências são reais e físicas. Se alguém me tirar daqui muita verdade será desvendada, por enquanto me calo sozinho. A solidão é o que me resta. Espero até que alguma alma boa venha me ajudar. Aguardo o dia em que o responsável pela minha morte se torne tão maduro quanto dizia. Eu acreditei nesse mundo repleto de cores alegres. Eu quis realmente acreditar. Me enganava, pois nunca pensei que tudo aquilo acabaria e finalmente morreria. Tudo tem fim. E as verdades insólitas acabam mais rápido que mentiras. Essa é minha única certeza. O pouco que vivi, provou isso.
A minha vida teria mudado o mundo. Comecei de fora para dentro e errei. Agora preciso viver de novo. Alguém me tire desse caixão e revele-me um novo lugar, mais real.

3 comments:
A morte sempre esteve ao meu lado, claro que nem sempre a favor, mas uma coisa ela me mostrou... a ver que as folhas caem, a árvore seca, renasce, dá frutos e flores e se mata novamente.
Beijinhos
Puta que pariu, Bruno!!! Desculpe, mas estou impressionada e, obviamente, sem palavras....
Beijos,
Guiga
Vc comeu cocô qdo era pequeno?
Get up, stand up, rapaz.
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