Tuesday, June 27, 2006

Doutor, será que saio dessa?

RUBEM ALVES
Doutor, será que saio dessa?


Estou remando a canoa rumo à terceira margem. Meu tempo é curto. Não posso gastá-lo com banalidades DOUTOR, AGORA que estamos sozinhos quero lhe fazer uma pergunta: "Será que eu escapo dessa?" Mas, por favor, não responda agora; sei o que o senhor vai dizer. O senhor vai dizer: "Estamos fazendo tudo o que é possível para que você viva". Mas não me interessa nem o que o senhor está fazendo nem o que todos os médicos do mundo estão fazendo. Sou uma pessoa inteligente. Sei a resposta. Sei que vou morrer. Morrer é difícil. Há a dor da morte e a dor das mentiras. Meus parentes, quando lhes sugiro o tema da morte, logo o evitam: "Tira essa idéia de morte da cabeça. Logo você estará andando de novo..." Tentam enganar-me, por amor. Fico então numa grande solidão. Não há ninguém com quem eu possa conversar honestamente.As visitas vêm, assentam-se, comentam as coisas do cotidiano. Eu também sorrio delicadamente. É estranho que uma pessoa que está morrendo tenha a obrigação social de ser delicada com as visitas. As coisas sobre que falam não me interessam. Eu estou muito longe remando minha canoa no grande rio, rumo à terceira margem. Meu tempo é curto. Não posso gastá-lo com banalidades...

... Esse é o meu último pedido,...,doutor, me responda: "Será que eu saio dessa?". Ficarei feliz se o senhor não me der aquela resposta boba, mas se assentar ao lado da minha cama e me disser: "Você está com medo de morrer. Eu também tenho medo de morrer...". Então conversaremos sobre o medo que mora em nós dois que vamos morrer...

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