Sunday, November 13, 2005

bruno_o alternativo comedido_ parte 02

Aqui se inicia o relato sobre o meu teste pessoal.
Algum tempo atrás me coloquei em algo novo, ao menos para mim.
Resolvi por questões lógicas que deveria abraçar alguém que normalmente nunca abraçaria. Aqui é o momento de relatar minhas experiências pessoais. Praticamente uma performance.

Sai na rua em busca da pessoa ideal. Um ideal.
Alguém sujo. Alguém muito sujo. Alguém que cheirasse merda. Alguém que tivesse o nariz escorrendo de tanto catarro. Alguém que carregasse feridas por todo o corpo. Feridas devido aos inúmeros carrapatos. Feridas de cortes, que provavelmente deveriam ter sido causados por quedas constantes durante o dia. Alguém que caísse muito porque era alcoólatra e fedesse cerveja. Alguém que tivesse as unhas pretas de tanto esfregar o lixo em busca de alimento. Alguém que se masturbasse o dia inteiro feito um cachorro no cio. Alguém que defecasse no meio na rua em plena luz do dia. Alguém que praticamente fosse um vira-lata. Alguém que da rua faz sua morada. Alguém que cultivasse a barba, pois não tem como comprar uma lâmina e cortá-la. Alguém que morasse debaixo da ponte. Alguém digno de pena. Alguém que a morte não será lamentada por ninguém. Alguém que realmente não escolhesse aquilo que come. Come aquilo que encontra. Alguém que resistisse à vida e não alguém que vivesse. Alguém. Um qualquer. Um porco. Esse ideal estava na minha cabeça. Uma pessoa escrota. Um mendigo de rua foi a minha primeira opção. Por que não? Deveria estar aberto a qualquer possibilidade. Eu procurava o meu ideal.

Pensei logo no mendigo que invadiu uma casa abandonada, isso na minha rua. Muitas vezes o vi masturbando na frente das pessoas. Todas chocadas. Ele sempre me cumprimenta quando cruzo a calçada. Talvez fosse a pessoa mais acessível. A pessoa perfeita.

Procurei. Procurei.
Estava lá. Como todos os dias. Parado. Olhando fixamente o nada. Sentado num banco da rua. O fluxo de pessoas não o interessava. Parei de longe e o observei. Ele vestia o de sempre, o mesmo paletó que usa desde seus 19 anos. Será que ele sabe a própria idade? Perguntei. Não diretamente a ele, foi uma pergunta interna mesmo. Eu somente o observava. Avancei. Quanto mais próximo, aumentava o meu ímpeto de abraçá-lo. Minha ansiedade rompia os limites da sanidade. Alguma força interna me movia para cometer aquele ato. Nada de mal poderia me acontecer. Nada. Era apenas um abraço. Um abraço para arrebentar de vez minha barreira como artista. Como pessoa. Como cidadão. Enfim, aquele ato mudaria meu modo de enxergar as pessoas.

Mais um passo. Outro. Outro. Ele notou de vez minha presença. Até então parecia estar tudo em perfeita ordem. Ninguém invadia espaço um do outro. Mais um passo. E enfim a primeira cusparada. O mendigo se levantou contra mim e num ato de loucura se ateve a cuspir tudo que podia em meu rosto. Era uma baba grossa. Nojenta. Corri. Corri sem parar. Arranquei minha camiseta e limpei aquele engodo. Obviamente a camiseta ficou na rua, jogada. Não a usaria nunca mais. Nojento.

Resultado:tomei um banho de quatro horas e trinta e cinco minutos. Gastei dois sabonetes inteiros. Esfreguei meu rosto por exatas 435 vezes. Gastei um recipiente inteiro de xampu. Minhas mãos permaneceram enrugadas por exatas quatro horas e trinta e cinco minutos. Gastei um vidro inteiro de pinho sol limpando cada maçaneta que toquei antes de tomar o banho. Minha roupa inteira foi diretamente para o lixo. Esgotado com todo aquele gasto de energia.AHHH. Dormi.


Só consegui de fato relaxar quatro dias e trinta e cinco minutos depois, quando voltei a sair de casa.

No comments: